Coluna Paulo Timm  2020

 

 


DEMOCRACIA NA CORDA BAMBA

Às vésperas da primavera debaixo do Equador, à espreita de dias mais longos e luminosos, celebramos, no último dia 15 (set), o DIA INTERNACIONAL DA DEMOCRACIA. Muitos se perguntaram, na ocasião, se teríamos mesmo algo a celebrar, seja no Brasil, seja no mundo. Nas respostas, polarizam-se pessimistas versus otimistas. Para estes, a democracia avançou no século XX com a disseminação de regimes constitucionais eleitos, generalizando-se como forma de governo melhor do que as autocracias absolutistas. Ela melhorou as condições de vida em vastas áreas do globo e ampliou os marcos das liberdades públicas e pessoais. Dão como prova o tão incrível quanto inédito crescimento da população de 1,2 bilhão em 1900 para 7 bilhões no ano 2000. Apontam como responsáveis por este êxito o aperfeiçoamento das duas instituições básicas da modernidade democrática: O Estado, como habitat da Lei e lugar de fermentação de ideais humanitários e o Mercado, como centro de produção de bens e serviços e lugar de incorporação da eficiência com base na livre iniciativa.

Já os pessimistas, céticos, nada veem nisso tudo, senão a perpetuação da grande miséria humana, medida em corpos suplicantes, sempre distante dos centros de poder e de consumo. Sustentam que a democracia não passou de um invólucro enganador, embora não se furtem, quando possível, ao jogo eleitoral como forma de acumulação de forças rumo à novas experiências sociais. E aí, não raro, descobrem dividendos positivos nesta convivência, presentes na abertura do espaço público à maior participação popular e, consequentemente, à ampliação da caixa de ferramentas estatais ao campo das Políticas Sociais de gosto popular. Acabam, inevitavelmente, se dividindo. Faz parte de sua própria história.

Ultimamente, porém, todos, ou quase todos, se mostram preocupados com a erosão da democracia, reeditando um estado de espírito já vivido nos anos 1920/30. Vários livros tratam disso. Parece haver um descrédito nas possibilidades deste regime em oferecer alternativas concretas para a reorganização, tanto de um Estado desgastado pelos sintomas da decadência do homem público a serviço de terceiros, quanto pelo corporativismo de seus quadros em benefício próprio, além de um Mercado crescentemente dominado por oligopólios financeiros, incapazes de redinamizar a capacidade concorrencial das empresas. Naquela época, a crise da democracia desembocou na radicalização acima apontada, alimentando, pela direita o nazi-fascismo de Mussolini e Hitler e, pela esquerda, os ideias revolucionários que desembocariam nas explosões de1917, na Russia, 1949 na China e em 1959 em Cuba. Agora, diante de uma verdadeira pulverização da esquerda depois da queda da União Soviética, segmentada, ainda, pela introdução de agendas ditas identitárias, o desmerecimento da democracia ganha corpo à extrema direita. A Hungria de Oban, a Turquia de Erdogan, Trump e Trumpete nas Américas o demonstram. Embora derrotadas, forças equivalentes se fortalecem na França e na Alemanha e Áustria, alimentadas, paradoxalmente, por eleitores de áreas industriais decadentes, antes inclinados à esquerda. Na Polônia, o famoso “elo mais fraco” da antiga Cortina de Ferro ocorre o mesmo, a ponto de ter exigido uma drástica intervenção da União Europeia para evitar uma severa mudança no sistema de justiça do país. Do “outro lado do mundo”, isto é, dos antagonistas abertos das democracias ocidentais, as quais acusam de falidas, na China, Coreia do Norte, ,Rússia, Cuba, Irã, Síria e na Venezuela,as esperanças de maior abertura se esvaem. Seus líderes não se cansam de cerrar as janelas de seus modelos à maior e mais diversificada participação popular em seus respectivos Governos.

No Brasil as recentes pesquisas dizem que tem aumentado a preferência pela democracia sobre alternativas autoritárias mas, paradoxalmente, apoiamos ideias e candidatos com ideias que a desautorizam, com discurso fortemente segregacionista contra uns e outros que pensem ou ajam fora do “cânone” da Boa Sociedade. Não somos, portanto, apenas o país dos jabotis e jaboticabas, mas também do paradoxo: Odiamos o “Outro”, só porque tem pele de outra cor ou olhos puxados, ideias e comportamentos não convencionais, adora outros deuses ou mesmo nem os tem, tem comportamento sexual “condenável”, ou simplesmente porque é pobre ou iletrado ou “retirante”. Queremos uma democracia de iguais a nós e mal sabemos que isso é justamente o que ela não é. Democracia, mais do que o voto na urna no próximo dia 15, é um regime de convivência entre

diferentes que não só se toleram, mas se respeitam. Por isso acaba sobrevivendo como ideal através do tempo. A democracia é uma utopia em eterna construção. Vamos celebrá-la convenientemente. Em Torres cinco candidatos a Prefeito disputam. Pense bem e escolha o seu.


Eis o Homem –

Marco Aurélio Campos (Poema)

 

Brotei do ventre da Pampa, que é Pátria na minha terra. Sou resumo de uma guerra que ainda tem importância.

Diante de tal circunstância, segui os clarins farroupilhas e, devorando coxilhas, me transformei em distância.

Sou tipo quu numa estrada, só existe quando está só. Sou muito de barro e pó. Sou tapera, fui morada.

Sou velha cruz falquejada num cerne de coronilha.

Sou raiz, sol farroupilha, renascendo estas manhãs. Sou o grito dos tahãs voejando sobre a coxilha.

Caminho como quem anda na direção de si mesmo.

E, de tanto andar a esmo, fui de uma a outra banda;

Se a inspiração me comanda, da trilha logo me afasto e até sementes de pasto replanto pelas vermelhas estradas velhas, parelhas, ao repisar no meu rastro.

Sou alma longa e tão cheia como os caminhos que voltam quando as saudades rebrotam substituindo os espinhos que a perda de alguns carinhos antigos, velhos aprontes, nasceram muitos, aos montes, desta minha vida aragana, nesta andança veterana de ir destampando horizontes.

Eu sou a briga de touros no gineceu do rodeio. Impropério em tombo feio quando um índio cai de estouro. Sou o ruído que o couro faz ao roçar no capim. Sou o tim-rim-tim-tim da espora em aço templado. Trago o silêncio, guardado, do pago dentro de mim.

 

 

Fazendo vez de oratório, sou cacimba destampada, de boca aberta, calada, como à espera do ofertório; como vigília em velório, nesse jeito que é tão seu: tem muito de terra… É céu que a gente sente ajoelhando e, de mãos postas, levantando o pago inteiro para Deus.

Sou o sono do cusco amigo meio dentro do borralho. Sou as vozes do trabalho, no amor, na paz – sou perigo. Sou lápide de jazigo perdida nalgum potreiro. Sou manha de caborteiro, sou voz rouca de cordeona cantando, triste e chorona, um canto chão brasileiro.

Sou a graxa da picanha na bexiga enfumaçada. Sou sebo de rinhonada me garantindo a façanha. Sou vozerios de campanha que nos lançantes se somem. Sou boi-ta-tá, lobisomem. Sou a santa ignorância. Sou o índio sem infância que, sem querer, ficou homem.

Sou o Sepé Tiarajú, o Uruguai, rio-mar azul.

Sou o Cruzeiro do Sul, luz e guia do índio cru. Sou galpão, charla, e chiru de magalhânicas viagens.

Andejei por mil paisagens, sem jamais sofrer sogaços. Cresci juntando pedaços de brasileiras coragens.

Sou, enfim, sabiá que canta, alegre, embora sozinho.

Sou gemido de moinho num tom tristonho que encanta. Sou o pó que se levanta. Sou terra, sangue, sou verso. sou maior que a história grega. Eu sou Gaúcho, e me chega p’rá ser feliz no universo.


CUIDADOS DE SI E COM OS SEUS

Paulo Timm – Pub. A FOLHA Torres RS 11/18 SETEMBRO

Setembro é o mês “amarelo”, de atenção a um dos temas que ainda subsiste como verdadeiro tabu: o suicídio. Atenção para que Estado e Sociedade, tomando conhecimento da gravidade do fenômeno, desenvolvam protocolos de prevenção do mal. Dia 10 de setembro é considerado o DIA MUNDIAL DE PREVENÇÃO DO SUICÍDIO no mundo inteiro. “Dor e preconceito”, segundo documentário da FIOCRUZ: https://www.youtube.com/watch?v=wN--fZ34n6k&feature=emb_title . Conheça suas dimensões:

"Todos os anos, o suicídio aparece entre as 20 principais causas de morte no mundo, para pessoas de todas as idades. Só ele é responsável por mais de 800.000 mortes - o que equivale a um suicídio a cada 40 segundos.(...) Para cada suicídio, 25 pessoas fazem uma tentativa e muitas mais pensam seriamente nele. Isso equivale a 108 milhões de pessoas por ano sendo profundamente afetadas pelo comportamento suicida. (...)É um comportamento com determinantes multifatoriais, resultado de uma complexa interação de fatores psicológicos e biológicos, inclusive genéticos, culturais e socioambientais. Dessa forma, deve ser considerado como o desfecho de uma série de fatores que se acumulam na história do indivíduo, não podendo ser considerado de forma causal e simplista apenas a determinados acontecimentos pontuais da vida do sujeito. É a consequência final de um processo.”

No Brasil registram-se12 mil suicídios por ano, cerca de mil por mês, 32 a cada dia, números em ascenção. Homens predominam nas estatísticas e, regionalmente, Rio Grande do Sul ocupa preocupante liderança. Estamos chegando perto daquela situação em que teremos uma vítima em cada família- http://dssbr.org/site/2016/09/nao-ha-lirismo-no-suicidio-os-numeros-que-assustam/ Ele afeta, em 96,8% dos casos, pessoas com algum transtorno mental, sobretudo os que padecem de depressão e drogadição, enfermidades articuladas que têm aumentado muito nos tempos atuais, principalmente em situações extremas, como as da atual quarentena. Todo cuidado, com paciência e tolerância para com eles é a recomendação dos especialistas. Fale e faça-os falar sobre o que sentem. Insista na “Escuta Ativa”. Recomende os grupos comunitários de apoio, como o Alcoólicos Anônimos -AA-, em funcionamento em todas as cidades do país, a ligação para o Centro de Valorização da Vida – CVV – ,188 ou profissionais habilitados. Na faixa de15 a 29 anos, o suicídio está entre as principais causas de morte, ao lado dos homicídios que também ceifam nossos jovens, mormente negros e pardos. . Esta é um segmento da população que, além dos fatores psicológicos, acumulam tensões em decorrência das dificuldades para sua adequada inserção social. Grande parte deles, que somam perto de15 milhões, são os chamados “nem-nem”, sem escola e sem emprego, em grande parte vivendo em áreas e lares extremamente pobres. Constituem o principal fator de evasão no II Ciclo, frustrando as possibilidades de um futuro melhor, e metade deles não tem acesso a renda. Tivesse o Governo maior sensibilidade ao problema e os converteria em prioridade para recebimento de Bolsa Família ou Renda Brasil: Defesa da vida, prevenção ao suicídio, abertura de janelas para a entrada numa ordem social injusta e competitiva, redução da evasão escolar.

Autoridades de saúde divulgam e reproduzimos os elementos do processo de reconhecimento sobre o risco de suicídio de jovens:

Relatos de solidão e de desinteresse em viver, com sentimento de tristeza

Perda de interesse pelas atividades habituais

Agressividade e ansiedade com mudanças no apetite

Alteração no sono e aversão ao convívio social

Presença de machucados ou mutilações .

 

Lembre-se: Cuide de si, mas também dos seus.

Cuide de si, alimentando metas e organizando rotinas diárias que lhe garantam acordar, a cada dia, com um conjunto de tarefas, mas cuide também dos seus queridos entes e amigos, guardando-os sob seu olhar atento..


O QUE DESEJA BOLSONARO?

Paulo Timm – Publ.A FOLHA, Torres RS -24/31 agosto -2020

 

Agosto, oitavo mês do ano é, para muitos, o mais cruel de todos eles. Paradoxo: Seu nome homenageia Cesar Augustus, o condutor da Era da Pax Romana depois da morte de Caio Julio Cesar. Para os europeus ocidentais, marcou o massacre de São Bartolomeu, no qual morreram, na França, milhares de protestantes.

“Corpos foram empilhados às centenas. Muitos foram jogados no rio Sena. A barbaridade era aterrorizante: um livreiro foi queimado, com seus sete filhos, em uma fogueira feita com seus livros. Nem mesmo os bebês foram poupados desse banho de sangue.[26]

As cenas monstruosas que se multiplicavam faziam duvidar dos limites da maldade humana. Quando finalmente a loucura parecia ter fim, o rei Carlos IX, então com 22 anos, deu a ordem de matar todos os huguenotes para além de Paris. Ele argumentava: “Em nome de Deus! Se quereis a vida do almirante, tomai-a! Mas então é preciso matá-los a todos – não deve ficar um único huguenote que possa vingar de mim!”[27]. Assim, “a loucura se espalhou pelas províncias nos dias e nas semanas que se seguiram”[28]. Bleye afirma que “a tremenda matança de calvinistas se repetiu em outras cidades da França (Meaux, Troyes, Orleáns, Toulouse, Rouen, Bordeaux) em dias sucessivos”[29].

A Enciclopédia Católica diz que em 24 de agosto um mensageiro com o selo real se dirigiu a Orléans, onde ordenou que se tratasse todos os huguenotes dali da mesma forma que os de Paris, exterminando-os com “todo o cuidado de não deixar escapar ninguém, e uma dissimulação perspicaz que surpreenda a todos”[30]. No dia seguinte, “foi emitido um pedido para matar os sectários”[31], e “em quase todo lugar do país prevaleceu a política de derramamento de sangue”[32].

Pijoan assevera que na manhã seguinte ao dia de São Bartolomeu (24 de agosto) “o sangue manchava as escadarias, os corredores e salões do palácio real”[33], mas o massacre ainda se estendeu por mais dois meses em doze cidades[34]. Tão grande era a quantidade de cadáveres jogados nos rios que ninguém mais podia comer peixe. Os relatos da época falam dos cadáveres boiando durante meses[35], e a Enciclopédia Católica registra que “durante três meses os habitantes não queriam beber água do rio”[36]. Não sem razão, o massacre da Noite de São Bartolomeu foi considerado “o pior dos massacres religiosos do século”[37].” - Entenda tudo sobre o massacre da Noite de São Bartolomeu: o maior genocídio religioso da história-http://www.lucasbanzoli.com/2018/03/entenda-tudo-sobre-o-massacre-da-noite.html?m=1

 

No Brasil tivemos o suicídio de Vargas, data comparável ao Dia da Independência ou da Proclamação da República, mais importante, até, que o 03 de outubro de 1930, quando deu início à Revolução que destronaria o “bico de pena” de oligarcas encartolados. E ainda tivemos a memorável Legalidade do Governador Brizola, em 1961, que quase nos leva à Guerra Civil. A mim, levou-me, jovem cadete em Porto Alegre, à maturidade precoce, no empunhamento de um velho fuzil Mauser 35 na guarda de um canhão antiaéreo na Redenção. Fico me perguntando:-“E se coisa esquentasse e eu morresse, como morrem, aliás, milhões de soldados em todas as guerras, desde o começo da civilização? (Sempre me chamaram a atenção as homenagens ao soldado desconhecido). Então...eu morria e pronto. Não teria amado as mulheres e os amigos que amei, não teria lido os livros que li, não teria conhecido o mundo que palmilhei, não teria tido os filhos que me alegram, não teria sonhado os sonhos que sonhei e não teria vindo curtir o meu outono à beira do Mampituba. Não teria vivido. Mas vivi.”

O interessante é que nem tudo que é ruim dura eternamente – o que é bom dura menos ainda. Sobrevém um tempo de calmaria e até bonanças. Do sétimo selo de São Bartolomeu nasceu a autoridade secular que abrigaria e Reforma Religiosa a qual, depois de muito penar na Guerra dos 30 Anos, de 1618 a 1648, abriria o mundo para o Tratado de Westphalia. Poucos o sabem.

Este foi um marco do princípio da soberania dos homens sobre suas preferências religiosas e das Nações sobre seu destino. Sabiam? Ou acreditam mesmo que o que é bom para Estados Unidos – ou Irã, ou Rússia, ou China – é bom pro Brasil?

No Brasil, o sangue de Vargas alimentou “Os Anos Dourados”, de 1955/60. Quanta saudades...? Vida que segue, nas linhas e entrelinhas. Principalmente nestas, onde a alma revela o corpo que falha, mais para a Psyche humana do que para o imortal Eros, ambos da mitologia grega. Aliás, aqui, Geografia e História se encontram. Em poucos dias, o 24, de Vargas, o 25, da Legalidade e o 27 de agosto convergem na celebração do Dia do Psicólogo. A Psicologia é a Ciência da Alma e do Comportamento Humanos Não se pergunta o que somos, mas porquê o somos. Homo Sapiens...? Homo comunicans? Homo Pugnat? Homo sensum? E assim o sendo, por que desejamos isso ou aquilo e por que nos dividimos tanto sobre estas preferências. Sobre isso tudo, mais controvérsias do que certezas.

Platão, no século V A.C. em Atenas mostrou a ambiguidade dos homens no mito da caverna. Os que saem à luz iluminam-se mas são taxados de loucos por seus pares se voltam ao meio original. Sair ou não sair? Ser ou não ser? Os

iluministas, cerca de dois mil anos depois retomam a trilha clássica e fundam o homem contemporâneo, alimentado pela inalcançável liberdade e pela razão nem sempre perceptível. O desejo do Homem ainda permanece oculto. O que deseja uma mulher (?) é a indagação jamais respondida de Freud. Alguém sabe? Melhor amá-las do que compreendê-las...

Nascemos, enfim, renovados em células, mas velhos em espírito, escravos de nós mesmos, como reféns de uma razão que desconhecemos, do Espaço, pela Geografia, e do Tempo, pela História. E tratamos de vir-a-ser com o que, de nós, nos fizeram estes condicionantes.

E temos o Brasil. Temos a pandemia, com perto de120 mil enterrados sem cerimônia alguma. Temos 65 milhões vivendo uma quimera de R$ 600 mensais na esperança de renová-la por algum tempo, antes da miséria estrutural.. Temos uma economia em busca da glória passada, quando nos orgulhávamos de ser um país que escapuliu do subdesenvolvimento colonial. E temos Bolsonaro num concêntrico labirinto. E temos nós, que perguntamos ao vê-lo em suas idiossincrasias, ambições e contradições : O que deseja o Presidente...?


TUDO COMO DANTES NO QUARTEL DE ABRANTES

Paulo Timm – Publ.A FOLHA, Torres RS ago/14/21-2020

 

 

A luta do homem, em qualquer tempo e geografia, é o enfrentamento com o meio, com os outros homens e consigo próprio. A Odisseia infindável do eterno retorno: a gestação, a sobrevivência, a reprodução, a morte. Do pó ao pó. Sina dos que vivem. E que reflete, no fundo, as três dimensões que nos definem e situam no cosmos: O espaço, o tempo e a consciência. Descartes, Hegel, Platão...Junto os pontos e terá um volume que, em movimento, constitui sua própria história.

.A tarefa do ficcionista é a de entender e escrever sobre isso. Não só situar o vivente neste processo, como colocá-lo em situações extremas: O muro, o grito do abismo, o fim. .Aí o drama, às vezes a tragédia, sempre calcada na verossimilhança com o real.. Um exemplo: Os grandes números não emocionam. São estatísticas. Isso aprendemos num dos mais importantes clássicos da filmografia americana dos anos1950 – “A Montanha dos Sete Abutres”: a tragédia tem que ter nome e endereço para chegar ao coração das pessoas. Philip Roth, renomado romancista americano, recentemente falecido, insistia no mesmo tom, mostrando os desafios das diversas gerações na época do Macartismo, da Guerra do Vietname e da Era Clinton. Mas isso é secundário. Importa destacar o momento brasileiro, que é decisivo. Mais de cem mil mortos pelo COVID 19, muitos sobreviventes da infecção, ainda incertos quanto às suas reais de saúde, os outros, imensa maioria da população, na dúvida: Estou ou não estou? Tempos de desafios extremos. Para os mais vulneráveis, idosos sobretudo, nem se trata do corredor da morte, sempre com prazos a cumprir com infindáveis recursos. Com o coronavírus tudo é muito rápido. Duas semanas e acabou-se. Ó tempos! E, escapando, enfrentar a dura realidade do desemprego e da crise

O ano todo de 2020 tem sido um desastre: Crise tríplice da Política, da Economia e Sanitária que acentua as 77 pragas que assolam o Brasil. Maio foi o mês mais tenso desta travessia. O Presidente, movido por suas indiossincrasias e ambições, segundo a Revista Piaui, chegou a tentar um golpe de mão no Poder.

Sentiu a pressão do Judiciário, do Congresso e da Sociedade Civil e mudou de estilo, para o que muito contribuíram as Pesquisas demonstrando uma sólida base de apoio, alimentada - na base - pelo Auxílio Emergencial. Caiu na real. Reaproximou-se do Supremo Tribunal Federal, evitando novos petardos a seus membros, atacados pelo “Chegou,Porra”!, acertou-se com um grupo parlamentar tradicional no Congresso- Centrão – e começou a flertar com a reeleição. Mudou ou assumiu-se...? Neste ímpeto começou a alimentar, na própria esfera governamental, uma velha divisão, de profundas raízes na História do Brasil desde 1930, reeditada em pleno regime militar em 1966, entre “pragmáticos ” e “doutrinários”. Os primeiros, optam por uma visão heterodoxa, marcada por inclinação às reformas do capitalismo brasileiro com vistas à aceleração, via investimentos públicos, do desenvolvimento e promoção da cidadania; os segundos, às reformas, tipo Privatizações e Reformas da Previdência, Administrativa e do Pacto Federativos, para a adequação deste mesmo capitalismo às exigências da globalização, hoje dominada por interesses financeiros num paroxismo do que Keynes chamava Love of Money – https://www.academia.edu/37217866/The_Love_of_Money_On_Menger_and_Keynes.

Para entender melhor esta diferença técnica entre ortodoxos e heterodoxos veja : José Luis Oreiro FB s9tSSagpsoa ohuladeag agcnofosnissouftoe ·

Explicando a diferença entre economia ortodoxa e economia heterodoxa https://www.facebook.com/jose.oreiro.3/videos/3218313871548313

 

Na prática, tensionou o equilíbrio interno do Governo, levando à fragilização de Paulo Guedes, avatar do liberalismo, diante da proclamação do “Plano Brasil” pelo Ministro General Luiz E. Ramos, apoiado pelos Ministros Rogerio Marinho, do Desenvolvimento Regional, e Tarcísio G. de Freitas, da Infraestrutura. Os “fura-tetos”. O clímax veio à tona no dia 11 (agosto) levando Guedes ao desabafo de que iria abrir fogo com estes, à luz, inclusive do desmantelamento de sua equipe com a saída de vários de seus Secretários, indispostos com o andar da carruagem. Chegou-se a anunciar a saída de Guedes com supostas consequências quanto ao apoio do “Mercado” ao Projeto Bolsonaro 2022. Não faltou o coro reverberado pela BIG MÍDIA de que estávamos de volta ao populismo. O Presidente assustou-se, reuniu o Ministério e fez nova profissão de fé ao liberalismo com irrestrito respeito ao Teto de Gastos da Emenda 95. Sempre com entrelinhas, pois Bolsonaro é bom político: Quer o Renda Brasil. Enquanto isso, o Judiciário, já livre do espectro de Sergio Moro, começa um processo de revisão da Lava Jato que poderá desembocar na anulação de muitos de seus processos, inclusive o que daria a Lula a possibilidade de voltar à cena eleitoral em confronto com Bolsonaro. Por paradoxal que isso possa parecer, porque nos conduz a uma situação de “extremos” tudo indica que Bolsonaro não a teme e que muitos de seus interlocutores até admitem que

possa ser, enfim, o caminho de uma pacificação da crise politica aberta em 2016. Será? Eis o filme: “Nasce uma estrela”...

A nação desdenha dos cem mil mortos, indiferente “às estatísticas”.

Aqui, então, a vida imita a arte e o cronista despede-se. Perplexo, mas conformado: Pra quê escrever “contos” se o só contar já é uma ficção...


 

RETRATO DO BRASIL 2020. BASTA!

Paulo Timm – 8 agosto 2020 –

 

Covas rasas do genocídio

Contribuição pessoal à Nota do Comitê de Apoio à Democracia e Estado de Direito- POA/RS – em homenagem às 100.000 vítimas do genocídio.x

O fascismo é bruto mas franco: mostra a cara. Rejeita a máscara. Nega a ciência. Alimenta pre-conceitos. Idolatra cloroquina e corteja a violência e a morte. O Brasil lamenta, no curso deste processo inaugurado pela posse do Presidente Bolsonaro dia 01 de janeiro de 2019, o óbito decorrente do novo corona vírus de 100.000 brasileiros vítimas de genocídio,tal como já denunciou um dos Ministros do Supremo Tribunal Federal, aí corresponsabilizando as Forças Armadas . O Tribunal de Contas da União, aliás, contabilizou um total de 6.157 militares da ativa e da reserva em cargos do governo.

 

“Famílias destroçadas, lágrimas, luto, mortes sem despedida. Cem mil. Além de tantos mortos, cada dia que passa registramos ao menos 1.000 novas mortes por Covid-19 e temos mais de 45 mil novos casos que poderão virar mais mortos ou mais pessoas com graves sequelas.”

Mas não se trata apenas de genocídio. Um médico, Dr. Arnaldo Lichtenstein denuncia que se trata de uma lógica de eugenia.

 

Eis o que fala a imprensa estrangeira: “Bolsonaro está levando Brasil á calamidade”. “Brasil é governado por gang de criminosos”. “Brasil á beira do caos”. E seus defensores ainda dizem que não há um caso sequer de escândalo no Brasil neste ano e meio de Bolsonaro. Oressa! O maior escândalo do período republicano é justamente este Governo insensível que aí está, contra o qual abundam manifestos de instituições e lideranças da Sociedade Civil, especialmente a Carta ao Povo de Deus firmada no mês de julho por 152 bispos e endossada por 1.057 padres e diáconos da Igreja Católica.

 

 

O Governo brasileiro negou, desde o anúncio da pandemia pela OMS, em janeiro deste ano a gravidade do COVID19. O Presidente da República JAIR BOLSONARO desdenhou dos riscos do COVID 19 e tentou impor ao Ministério da Saúde um Protocolo superficial, contrário às recomendações de isolamento social e cuidados pessoais forçando a demissão do seu titular, Deputado Mandetta, substituindo-o por um General da ativa subserviente às suas irresponsáveis determinações, quem acabou militarizando com centenas de militares a respectiva pasta. Capítulo criminoso consistiu na recomendação, seguida de público marketing da cloroquina para o combate à doença no SUS. Puro charlatanismo. Denunciamos nesta hora de pranto e luto da Nação brasileira a ignóbil atitude negacionista do Presidente Bolsonaro. Seu Governo não compreendeu a necessidade de elaborar, desde janeiro um verdadeiro e abrangente Plano de Enfrentamento ao Coronavírus, que contemplasse ações no campo da Informação, através de todos

os veículos de Midia do país, na mobilização do conjunto e articulado de atores públicos e privados da sociedade, no pronto mapeamento nacional das condições sanitárias, em termos de infraestrutura, recursos humanos e medicamentos, com vistas ao seu fortalecimento, na compra centralizada de produtos e equipamentos para o sistema de saúde etc. Respondeu, por certo à demanda da sociedade reverberada pelo Congresso Nacional no sentido de oferecer um Orçamento de Ajuda Emergencial aos trabalhadores dispensados pela crise e às empresas afetadas. Mas fê-lo de forma improvisada, sem o adequado apoio das Organizações Não Governamentais que detêm conhecimento da situação das maiores carências. Em consequência, multiplicaram-se as fraudes no auxílio ás família, com o agravante de que o apoio ao empresariado acabou privilegiando as grandes corporações em detrimento das pequenas e médias empresas. Quanto ao apoio a artistas e promotores da cultura, enfim consagrado na Lei Aldir Blanc ainda nada se viu de concreto acontecer. Penam os circos e artistas de rua, penam os grupos teatrais, penam os conjuntos musicais, chora a criativa arte no Brasil diante do caos que se desatou sobre o setor. Isso tudo, porém, não se resume ao genocídio de 100mil brasileiros, maior parte, aliás, idosos, pobres e negros sofridos moradores das periferias das cidades. E comunidades indígenas. Aqui nosso pesar pela morte de Aritana Yawalapiti, vítima não da fatalidade do COVID 19 mas do descaso das autoridades federais para com os índios. E dizer que um General, Rondon, um dia cunhou esta frase que se converteu em máxima do indigenismo brasileiro:

-“Matar nunca, morrer se for preciso”.

A tragédia se estende sobre todos os serviços públicos do país.

MEC , já debilitado por um ano e meio nas mãos de um facínora, hoje premiado com um cargo de Diretor do Banco Mundial, com salário de R$121.000, 00 mensais, anuncia que vai cortar R$ 1,4 bi de verba de universidades e institutos em 2021. Pior, querem mandar nossas crianças para as escolas em meio ao morticínio, levando ao estupor cientistas como Nicollelis, pedagogos, país e professores.

As queimadas da Amazônia continuam, despertando indignação até de grandes investidores internacionais e do pequeno grupo de banqueiros, tendo aumentado em 31% nos últimos 12 meses segundo o INPE. Tudo com resultado do desmonte dos órgãos e legislação de proteção ambiental comandado por um Sinistro do Meio Ambiente já condenado em São Paulo por conluio com interesses corporativos. Um conhecido estudioso da Amazônia , Carlos Nobre, adverte em entrevista nestes dias ao IHU/Unisinos, ilustrada, aliás por outra entrevista da mesma fonte da Professora Aparecida Vilaça:

“Destruição da Amazônia pode transformá-la em deserto e desencadear pandemias.”

Ao genocídio de brasileiros vulneráveis e destruição da Amazônia, associa-se a Fantástica Madame Defensivos, na pasta da Agricultura, tão meiga quanto melíflua, com o recorde de liberação da boiada de agrotóxicos que esgotarão a terra e intoxicarão nossas crianças. Ano passado 475 novos produtos foram por ela liberados e em 2020 segue o passo, com um total de 150 produtos recebendo registro desde o começo do ano, sendo 118 durante a pandemia.

E o que diz diante de tudo isso a Ministra dos Direitos Humanos, que sublinha com suas ações em organismos internacionais as posições mais atrasadas sobre direitos da mulher, das crianças e comunidades vulneráveis: “Direitos Humanos para humanos direitos...” Truísmo nojento e criminoso. Humanos direitos que veem, sucessivamente, cortando históricas conquistas trabalhistas na Reforma da CLT e na Reforma da Previdência aprovadas ano passado (2019). Humanos direitos que reverberam do Gabinete do Ódio localizado no Palácio do Planalto, ao lado do Gabinete do Presidente e sob seus olhares complacentes e cúmplices campanhas de fake News forjadas para combater não só supostos adversários políticos mas até mesmo membros do Governo, alguns dos quais já abatidos em pleno võo ministerial. Humanos direitos que sob a tutela de um Ministro da In-Justiça, André Mendonça, monta serviços de espionagem eivado de militares contra servidores contrários à barbárie fascista em curso e que ainda tem o desplante de afrontar em tom cínico e

desafiador o Supremo Tribunal Federal, na pessoa da Ministra Caremen Lúcia, com esta pérola autoritária:

"A mera possibilidade de que essas informações exorbitem os canais de inteligência e sejam escrutinadas por outros atores internos da República Federativa do Brasil — ainda que, em princípio, circunscrito ao âmbito do Supremo Tribunal Federal — já constitui circunstância apta a tisnar a reputação internacional do país e a impingir-lhe a pecha de ambiente inseguro para o trânsito de relatórios estratégicos"...

Combina-se a catástrofe governamental, também, com o desmantelamento do Itamaraty, na retomada subserviente de que “o que é bom para os ESTADOS UNIDOS é bom para o Brasil, deixando-se nossas autoridades à mercê de ameaças do Embaixador Americano quanto à nossa decisão na instalação do 5G. E, no pior dos males, entrega-se o grande salto industrial realizado pelo Brasil no século XX à sanha especulativa do Ministro Paulo Guedes, quem, em meio à crise aproveita para passar outra boiada: a das privatizações que entregarão a preço vil patrimônio significativo do povo brasileiro. Dele a dicção na famosa reunião ministerial de 22 de abri: -“Essa porra do Banco do Brasil está pronta para a privatização”. Chulo. Traidor que ainda haverá de pagar pelos seus crimes. Junto prepara ele um novo ataque á cultura com a Reforma Tributária: Em vez de taxar os bilionários rentistas, que não passam de 0,1% da população do país, detentores de um patrimônio líquido de R$10 trilhões aplicados á taxa média anual de 34%, agora quer cobrar tributo sobre livros. E lá se vai nesta Reforma, ladeira abaixo a classe média tradicional, cada vez mais onerada...Enquanto isso vai queimando as nossas preciosas reservas com o intuito de evitar a queda ainda maior do dólar, fruto de uma evasão inusitada de capitais externos do país. Dentro de um ano, a crise cambial voltará a nos colocar nos braços do FMI, pois teremos chegado a uma posição vulnerável de ter uma dívida externa duas vezes maior do que as reservas, grande parte dela de empresas debilitadas pela crise e sem condições de honrar seus compromissos.

 

Triste. O neofascismo de Bolsonaro não tem qualquer projeto para o Brasil, a não ser o de destruir o produto de décadas de trabalho e grandes sacrifícios em nome de uma suposta guerra contra inimigos invisíveis que estariam colocando em risco o mundo ocidental. Com esta narrativa, totalmente avessa às convicções do antigo Não Alinhamento, hoje revigoradas pela luta pela consolidação de um mundo inevitavelmente globalizado mas com recortes de múltiplos polos de Poder, Bolsonaro anula o Brasil e alimenta os caminhos de mais mortes, mais desemprego, mais miséria e que já aponta para a proletarização de amplos segmentos da classe média. Aos familiares dos cem mil brasileiros que partiram a nossa solidariedade e nossa grande esperança de juntarmos o povo brasileiro na reconquista de sua verdadeira soberania, a que repousa sobre a defesa da vida e do desenvolvimento. Resta-nos , sobretudo, a esperança. Afinal, como proclama Leonardo Boff, que subscrevemos: “Mas dentro deste inferno dantesco, há algo do paraíso que nunca se perdeu e que constitui a permanente saudade do ser humano: saudade da situação paradisíaca na qual tudo se harmoniza, o ser humano trata humanamente outro ser humano, sente-se confraternizado com a natureza e filho e filha das estrelas, como dizem tantos indígenas. Em tempos maus como o nosso, vale ressuscitar esse sonho que dorme no profundo de nosso ser. Ele nos permite projetar outro tipo de mundo que, para além das diferenças, todos se reconhecem como irmãos e irmãs. E se entre-ajudam.” http://www.ihu.unisinos.br/601574-dentro-de-um-inferno-algo-do-paraiso-nao-se-perdeu-artigo-de-leonardo-boff?fbclid=IwAR2e0X-Pq3KIWh0Ktxndh-VPT8pbmt7g3P8Jdc_jMOQrRnZdxPBD72FmcP4

Há alguns meses, em maio, o Presidente Bolsonaro tentou um golpe felizmente frustrado, hoje desmascarado pela imprensa, afirmando alto e bom tom: “Chega , porra!”. Agora chegou a nossa hora de dizer: - BASTA! .Aliás, como frisa Reinaldo Azevedo, um cronista que ninguém pode acusar de comunista pela sua cruel campanha contra os governos Lula e Dilma: “Já passou da hora - e como passou - das autoridades civis desta República, representando o povo na forma da Lei, tomarem

conhecimento e cuidar desse monstrengo, debelando-o enquanto ainda embrião. “

 


ENTRE-MENTES

Paulo Timm – Pub. A FOLHA, Torres RS – 31 JULHO

“Apesar dos novos picos de infecção, a abertura continua…” De maneira insuperavelmente irônica, o retorno à normalidade torna-se assim o gesto psicótico supremo, o emblema da loucura coletiva.

S.Žižek: a “volta ao normal” é a psicose suprema

· 24 Julho 2020- http://www.ihu.unisinos.br/601254-zizek-a-volta-ao-normal-e-a-psicose-suprema?fbclid=IwAR3-k-3Hj_3O_9Nt-CeCIyzq4fRmtDbtrt2pBONAIj9WKDrFOEmCJOEaaMQ

 

*

Enquanto os americanos amargam a perda de 32% no seu PIB no segundo trimestre em meio a graves conflitos raciais, na pior crise do último século, para desespero do Presidente Trump e gáudio da China, a Europa celebra o verão nas ruas. Verdade que ainda temerosa de uma reincidência do corona vírus, mas com os olhos nos planos mirabolantes de reformas prometidas pela União Europeia: Trilhões... Já no Brasil, vivemos o “inverno da nossa desesperança” embarcados numa espécie de “nau dos insensatos”, ainda que sob uma tênue trégua nos excessos do Presidente Bolsonaro. Ninguém mais fala em impeachment. Há remanejamentos na Câmara dos Deputados e no âmbito da Procuradoria Geral de República, que resolveu intervir na “República de Curitiba”, mas sem sinais de guerra. Cuidado, porém! As águas calmas escondem perigosas correntes subterrâneas. A oposição pode acordar...

No início do ano passado eu falava em tensões políticas. Depois, perto do fim do ano, me preocupou a estagnação econômica. E no início deste 2020 , sucumbi ao pânico sanitário, que ainda me assusta. A essas alturas, contudo, me dou conta que nem são só três as crises que nos afetam, nem sete pragas, mas 77. Não cabe aqui enumerá-las. Fechamos o mês de julho com uma média diária persistente de mil óbitos. Ela nos mantém tensos sobre um passivo de perto de 100 mil mortos, número superior às vítimas anuais de acidentes de trânsito e homicídios violentos. A doença, que arrefeceu nos primeiros centros de infecção, se alastra assustadoramente na vizinhança: Santa Catarina e Rio Grande do Sul. “Pelo segundo dia consecutivo (29.julho), RS tem recorde de registro de mortes nas últimas 24h. Foram 70 óbitos no estado, sendo 13 na capital; RS já tem 1.750 vítimas e 64.496 casos confirmados da doença.”

No litoral norte do Estado estamos sob bandeira vermelha com sérias restrições ao comércio, aulas e aglomerações. Os empresários chiam, aqui, junto ao Prefeito Carlos Souza, que se mostra favorável a uma flexibilização imediata. Não obstante, os números de infectados e suspeitos em Torres e Passo de Torres continua aumentando. Me pergunto, aliás, quando veremos a gestão conjunta de políticas públicas para municípios tão interligados. O que custaria

um encontro mensal para concertar instrumentos de ação? Preocupa, sobretudo os mais cautelosos que, como eu, estão no grupo dos “meio vulneráveis” -os mais vulneráveis são os mais pobres – a questão da pandemia. Preferiríamos um enérgico lock out como mecanismo de choque na curva de contaminação:

 

 

Evolução do COVID 19 – Ultimos dias - Boletim Epidemiológico das Prefeituras

TORRES

 

Dia29 - 370 infectados x 116 suspeitos

Dia 27 - 333 infectados x 135 suspeitos

Dia 26 - 330 infectados x 114 suspeitos

Dia 19 - 230 infectados x 88 suspeitos

 

PASSO DE TORRES

95 x 39

92 x 32

76 x 36

Enquanto isso segue a vida. Para 42 bilionários, às mil maravilhas. Pesquisa da OXFAM mostra que elevaram seu patrimônio, durante a crise, de US$123 bilhões para US 157 bilhões – dólares. Eles são parte da fatia seleta de 200 mil famílias do que antigamente se chamava de classe dominante: Os Donos do Brasil, que vivem de propriedades - https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/07/27/patrimonio-dos-super-ricos-brasileiros-cresce-us-34-bilhoes-durante-a-pandemia-diz-oxfam.ghtml.

Quanto à classe média, passa por um sufoco: Acabaram-se as viagens ao exterior, serviços domésticos e compras de importados com a brutal desvalorização do Real, enquanto sua Poupança evapora-se nas aplicações. Os Planos de Saúde periclitam. Carro zero, nem pensar.Nos miasmas da crise vai sumindo, também, sua idealização da Lavajato. O Brasil não mudou: Centrão, escândalos, sinecuras, vilegiaturas...

Por fim, os muito pobres, aqueles que saltaram de 8 milhões para 13 milhões nos últimos anos, estão relativamente a salvo. Graças ao Auxílio Emergencial dos R$600, que chegou a 43% dos domicílios do país, eles estão comendo. https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/Economia/noticia/2020/07/auxilio-emergencial-aumentou-renda-de-trabalhadores-informais-em-50.html?utm_source=notificacao-geral&utm_medium=notificacao-browser

Agradecem, mudando sua opinião sobre o Governo, que aí compensa as perdas de apoio nas classes altas. As pesquisas eleitorais confirmam: Bolsonaro segue na frente de qualquer outro candidato em 2022. Se transformar este Corona Vaucher em Renda Brasil, com valor em torno deR$500 para 40 milhões de brasileiros, vira Presidente Perpétuo do Brasil. Ou Imperador, para o que já dispõe de uma invejável e primorosa Família Real. Só faltará revogar a Lei Áurea.



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